5 fatores que travam a cultura inclusiva nas empresas brasileiras e como superar cada um deles

Resumo:

Apesar do investimento em programas de DEIP, muitas empresas ainda falham em criar uma cultura inclusiva. Descubra como superar este desafio. Veja agora!
Pessoas em uma sala conversando sobre cultura inclusiva.

Apesar do investimento em programas de DEIP, muitas empresas ainda falham em criar ambientes verdadeiramente representativos e seguros.

A diversidade, equidade, inclusão e pertencimento (DEIP) já se consolidou como uma agenda de negócios estratégica para empresas brasileiras que buscam inovar, atrair talentos e garantir sustentabilidade. No entanto, uma contradição marca o cenário corporativo brasileiro: embora muitas organizações invistam em programas e treinamentos, a transformação cultural ainda patina. O discurso avança, mas a prática parece estagnada.

Mas, afinal, o que impede que as empresas saiam do campo das intenções e construam ambientes de trabalho verdadeiramente inclusivos? A resposta, na maioria dos casos, reside em obstáculos estruturais que muitas vezes passam despercebidos, como a realização de iniciativas pontuais sem impacto real.

Cultura Inclusiva no Brasil: entre intenções e resultados

Segundo a pesquisa “Diversidade, Equidade e Inclusão nas Organizações” de 2024, realizada pela Deloitte Brasil, a maturidade das práticas de DEIP no país ainda enfrenta desafios. Além disso, um estudo recente conduzido pela Robert Half e Labora, apontou que 70% das empresas brasileiras ainda não têm métricas para combater o etarismo, um dos preconceitos mais comuns no ambiente de trabalho

Esses dados revelam a dificuldade das companhias em traduzir boas intenções em resultados mensuráveis. O especialista em treinamento inclusivo e CEO da Profera Educação, Victor Lambertucci, destaca que o progresso da inclusão depende de uma mudança de mentalidade, não apenas de um checklist. 

“O erro mais comum é tratar a educação e  inclusão como um projeto de RH isolado, e não como um pilar da cultura organizacional. É preciso quebrar o mito de que a diversidade é sobre cumprir uma cota. Na verdade, é sobre reconhecer e valorizar o potencial de cada indivíduo, criando um ambiente onde todos se sintam seguros para ser quem são e entregar resultado”, afirma Lambertucci.

A seguir, listamos os cinco principais fatores que travam o avanço da cultura inclusiva nas empresas brasileiras, além de apresentar soluções objetivas para superá-los.

1. Desconexão entre discurso e prática

As estratégias de DEIP são bem elaboradas, os comunicados são impecáveis, mas a realidade do dia a dia não reflete o que é prometido. Essa distância entre a teoria e a prática gera desconfiança e frustração, minando a credibilidade de qualquer iniciativa, por mais nobre que seja a intenção.

Como superar:

  • Integração total: A inclusão deve ser um valor central, não um anexo. Ela precisa estar integrada a todos os processos da empresa: do recrutamento e seleção à avaliação de desempenho e políticas de sucessão.
  • Comunicação transparente: Se houver falhas, reconheça-as. A vulnerabilidade de reconhecer que o processo é uma jornada contínua pode fortalecer a confiança, pois demonstra um compromisso genuíno em aprender e evoluir.

2. Liderança sem representatividade real

A alta liderança é o principal exemplo para o restante da empresa. Se os cargos de decisão continuam concentrados nos mesmos perfis (geralmente homens brancos), a mensagem que se passa é que, apesar dos programas de diversidade, o acesso a posições de poder ainda é restrito. 

Embora a diversidade étnica e de gênero tenha aumentado nas empresas, ainda é preciso um esforço maior para que esses grupos ocupem cargos de liderança de forma equitativa.

Como superar:

  • Metas de contratação e promoção: Estabeleça metas claras para a contratação e promoção de profissionais de grupos representativos, especialmente em cargos de liderança.
  • Mentoria reversa: Incentive a alta liderança a ser mentorada por talentos de grupos diversos. Isso pode criar uma nova perspectiva sobre os desafios e oportunidades de inclusão, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento de novas lideranças.
  • Plano de sucessão inclusivo: Desenvolva planos de sucessão que priorizem a diversidade de perfis, assegurando que o “pipeline” de talentos seja verdadeiramente representativo.

3. Falta de preparo e informação

Muitas equipes recebem a missão de promover a cultura inclusiva, mas não têm o conhecimento ou as ferramentas necessárias para fazê-lo de forma estruturada. A boa vontade existe, mas o “como fazer” é uma grande incógnita.

Como superar:

  • Capacitação contínua: Invista em programas que vão além do básico, abordando temas como comunicação não violenta, vieses inconscientes e microagressões.
  • Ferramentas e recursos: Crie um portal interno com guias, glossários e materiais que ajudem os colaboradores a entender e praticar a inclusão.
  • Responsabilidade compartilhada: Encoraje a criação de grupos de afinidade e comitês de diversidade que possam dar suporte e gerar novas ideias, tornando o processo mais participativo e orgânico.

4. Preconceitos inconscientes não mapeados

Vieses inconscientes são atalhos mentais que podem levar a julgamentos equivocados. Eles operam nas sombras e podem sabotar as melhores iniciativas de DEIP, influenciando decisões de contratação, promoção e até a forma como se interage no dia a dia. 

Uma pesquisa da Indeed, realizada em 2024, revelou que 70% dos recrutadores admitem ter vieses inconscientes em suas empresas, o que reforça a urgência em tratar o tema de forma estrutural.

Como superar:

  • Treinamento: Promova workshops para mapear os preconceitos mais comuns na empresa e como eles impactam o processo decisório.
  • Autoconsciência: Incentive a reflexão e a autocrítica. O primeiro passo para mudar um viés é reconhecê-lo.
  • Estrutura de processos: Revise processos para torná-los mais objetivos. Por exemplo, use a triagem cega de currículos para evitar a influência de nomes ou idade.

5. Ausência de métricas efetivas

Muitas empresas medem apenas a participação em eventos e treinamentos, sem avaliar o impacto real dessas ações. A falta de métricas claras impede que as organizações identifiquem o que realmente está funcionando e onde precisam ajustar a estratégia. 

Um relatório da Great Place to Work (GPTW) de 2023 apontou que a diversidade e a inclusão perderam força nas prioridades das empresas, o que, em parte, pode ser resultado da falta de mensuração do impacto dessas iniciativas.

Como superar:

  • Definir KPIs de inclusão: Defina indicadores-chave de performance (KPIs) que realmente importam, como taxa de retenção de talentos diversos, engajamento e a percepção de pertencimento dos colaboradores.
  • Análise de dados: Cruze dados de diversidade com outras métricas de negócio, como produtividade, rotatividade e satisfação dos funcionários, para entender a correlação entre a diversidade e o desempenho.
  • Pesquisas de clima e engajamento: Inclua perguntas específicas sobre inclusão nas pesquisas internas para medir o sentimento e a percepção dos colaboradores sobre o tema.

A fundadora e CEO da PlurieBR, Laura Salles, ressalta a importância de ir além do superficial:

“Para construir uma cultura inclusiva, é preciso ir além da caixinha de seleção. É preciso ter dados que comprovem que a empresa é um ambiente seguro e onde as pessoas se sentem pertencentes, respeitadas, com voz e representatividade”, destaca.

Construir uma cultura inclusiva é um trabalho contínuo, que exige coragem para enfrentar o desconforto e a vulnerabilidade de reconhecer que ainda há muito a ser feito. Ao identificar e superar esses obstáculos, as empresas não apenas melhoram seus resultados, mas criam ambientes de trabalho mais justos, inovadores e humanos, beneficiando a todos.

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