Fim do greenwashing nas corporações com IFRS S1 e S2, ESG vira questão de sobrevivência estratégica

Resumo:

A nova regulação internacional obriga as empresas a comprovarem o que dizem sobre sustentabilidade. Não se trata mais de reputação, trata-se de sobrevivência no mercado.
Mãos segurando moedas com uma planta crescendo, simbolizando o fim do greenwashing e a transformação do ESG em estratégia corporativa com IFRS S1 e S2

Durante anos, muitas empresas enchiam seus relatórios anuais de imagens de florestas, prometiam neutralidade de carbono para décadas distantes e celebravam pequenas iniciativas como se fossem revoluções estruturais. O mercado aplaudia, os investidores aprovavam, e a conta não era apresentada a ninguém. Agora, esse tempo acabou, e não por uma mudança de consciência espontânea do mundo corporativo, mas porque a regulação finalmente chegou com precisão.

A publicação das normas IFRS S1 e IFRS S2, dois padrões internacionais lançados em 2023 pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), marca a virada desse ciclo estabelecendo, respectivamente, os requisitos gerais de divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade com impacto financeiro (S1) e as exigências específicas sobre riscos climáticos, incluindo emissões de gases de efeito estufa e metas de transição (S2). Juntas, essas normas transformam dados ESG em informações verificáveis e auditáveis, sem mais espaço para narrativas sem números.

O Brasil, por meio da Resolução CVM 193/2023, foi o primeiro país do mundo a incorporar esses padrões em seu marco regulatório, tornando obrigatória a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade para todas as companhias abertas a partir do exercício de 2026. O relógio já está correndo e as empresas que ainda não iniciaram sua adequação estão, literalmente, atrasadas.

O que é greenwashing e por que ele se tornou um risco jurídico

O termo greenwashing, derivado da junção das palavras inglesas green (verde) e washing (lavagem), é a prática de construir ou amplificar artificialmente uma imagem de responsabilidade socioambiental que não corresponde à realidade das operações da empresa. Não se trata necessariamente de mentira declarada, pois o greenwashing pode se manifestar por omissão, por seleção conveniente de dados, por linguagem ambígua ou por projetos isolados apresentados como se representassem a totalidade da estratégia corporativa.

Na prática, o greenwashing se apresenta de diversas formas. Uma empresa pode divulgar metas climáticas ambiciosas para décadas futuras sem qualquer plano concreto no presente. Pode rotular produtos como “sustentáveis” com base em um atributo isolado, como a embalagem reciclada, enquanto ignora o impacto de toda a cadeia produtiva. Ou ainda pode publicar relatórios de sustentabilidade ricos em narrativa e pobres em dados verificáveis, projetando uma imagem ESG que os números não sustentam.

Por muito tempo, esse tipo de prática ficou sem consequências. O ambiente era frouxo, os padrões de divulgação eram vagos e não havia obrigação de submeter afirmações ESG a qualquer verificação. O que mudou não foi apenas a consciência sobre o problema, mas a arquitetura institucional ao redor dele. 

Hoje, investidores e o próprio judiciário passaram a tratar esses relatórios como informações de valor de mercado e, portanto, passíveis de responsabilização quando se revelam falsas ou enganosas. Reguladores em diferentes partes do mundo passaram a abrir investigações, emitir multas e, em casos mais graves, enquadrar o greenwashing como infração criminal. O mercado aprendeu a distinguir quem faz de quem apenas fala. E no Brasil, a regulação chega para tornar essa distinção oficial.

ESG como vantagem competitiva real

Ainda existe quem enxergue ESG como mais uma obrigação a cumprir, uma linha de custo no orçamento, um relatório a mais para entregar no fim do ano. Essa leitura, além de equivocada, está se tornando cada vez mais cara. Porque o que os dados mostram é justamente o oposto: empresas que levam ESG a sério estão saindo na frente, e não só no discurso.

Uma pesquisa da KPMG realizada em 2025 com 1.320 executivos seniores e membros de conselho trouxe números que merecem atenção. Entre as empresas que já adotaram práticas robustas de asseguração ESG, 60% esperam ganhar mais mercado ou ampliar sua base de clientes, 54% projetam melhora na rentabilidade e 52% enxergam fortalecimento direto da reputação. Não se trata de projeções abstratas, pois são executivos relatando o que já estão colhendo, ou prestes a colher, como resultado de escolhas que fizeram antes dos concorrentes.

Alinhar-se aos padrões IFRS S1 e S2 de forma genuína, portanto, é uma decisão certa de negócio. Conduzir avaliações de materialidade com rigor, estruturar sistemas de coleta de dados que resistam à auditoria e integrar a narrativa financeira à narrativa de sustentabilidade são movimentos que fortalecem a empresa por dentro, e a tornam mais atraente por fora. Cada mês de atraso nessa estruturação é um tempo que o mercado já não espera.

As empresas que reconhecem isso hoje transformam a obrigação normativa em diferencial competitivo real, enquanto as que postergam acumulam não apenas passivo jurídico, mas distância estratégica de difícil recuperação. O que está em jogo não é apenas a conformidade com uma norma contábil, mas a definição de quais empresas serão consideradas confiáveis, estratégicas e financiáveis nos próximos dez anos. 

A sustentabilidade deixou de ser um atributo reputacional para se tornar uma variável de sobrevivência no ecossistema corporativo global. As empresas que compreenderem isso agora, e agirem em consequência, não estarão apenas evitando riscos, estarão construindo a base de uma competitividade que o tempo, mais do que qualquer regulação, vai se encarregar de confirmar.

As empresas que compreenderem isso agora, e agirem em consequência, evitarão riscos regulatórios ou reputacionais e estarão construindo uma base sólida de competitividade, ancorada na capacidade de mensurar, reportar e capturar valor a partir de suas iniciativas em ESG, algo que o tempo, mais do que qualquer regulação, vai se encarregar de confirmar.

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